Crise de ansiedade é o momento em que a ansiedade sobe a ponto de tomar conta do corpo e dos pensamentos: o coração dispara, o ar parece curto, os músculos travam e vem a certeza de que algo ruim vai acontecer. Ela é desconfortável e assusta, mas tem começo, pico e fim, e entender o que está acontecendo no corpo já reduz boa parte do medo.
Neste artigo
O que é uma crise de ansiedade
A ansiedade é o sistema de alarme do corpo. Diante de um perigo, o cérebro dispara a chamada reação de luta ou fuga: libera adrenalina, acelera o coração e a respiração e prepara os músculos para agir. Esse sistema é útil quando há um perigo real. Na crise de ansiedade, ele dispara com força total diante de uma ameaça que não está ali, ou que ainda não aconteceu: uma reunião, uma conversa, um pensamento do tipo “e se…”.
“Crise de ansiedade” não é um diagnóstico formal. Os manuais de psiquiatria usam o termo ataque de pânico para um tipo específico de crise, súbita e muito intensa. No dia a dia, porém, as pessoas chamam de crise de ansiedade tanto esse ataque quanto aquele episódio em que a tensão vai crescendo até transbordar. Neste texto, o termo é usado nesse sentido popular, e a diferença entre os dois aparece mais abaixo.
Sintomas da crise de ansiedade
Os sintomas variam de pessoa para pessoa e nem todos aparecem juntos. Muita gente sente mais o corpo; outras pessoas sentem mais a mente acelerada.
Sintomas físicos
Os mais comuns são coração acelerado ou batendo forte, respiração curta e a sensação de não conseguir encher o pulmão, aperto ou pontadas no peito, nó na garganta, tremor, suor, mãos frias, formigamento nas mãos, nos pés ou ao redor da boca, tontura, estômago embrulhado, vontade de ir ao banheiro, ondas de calor ou de frio e músculos travados, principalmente nos ombros, no pescoço e na mandíbula. Depois da crise, é comum ficar um cansaço grande, como se o corpo tivesse feito muita força.
Por que o corpo reage assim
Cada sintoma tem uma explicação, e conhecer essa explicação ajuda a não interpretar o sintoma como sinal de algo grave:
- Coração acelerado: a adrenalina faz o coração bombear mais sangue para os músculos, como se você fosse correr.
- Aperto no peito: os músculos do tórax se contraem junto com o resto do corpo, e a respiração curta aumenta essa sensação.
- Mãos frias e estômago embrulhado: o sangue é desviado para os grandes músculos, e a digestão fica em segundo plano.
- Falta de ar, formigamento e tontura: na crise, a pessoa tende a respirar rápido e pela parte de cima do peito. Isso elimina gás carbônico demais e muda o equilíbrio químico do sangue, o que provoca formigamento nas mãos e em volta da boca, tontura e, paradoxalmente, a sensação de que falta ar. O Manual MSD descreve esses sintomas da respiração acelerada, e lembra que outras causas precisam ser descartadas antes de atribuí-los à ansiedade.
- Sensação de irrealidade: algumas pessoas sentem o ambiente estranho, distante, ou se sentem fora do próprio corpo. É um efeito da ansiedade intensa e passa quando ela baixa.
Nos pensamentos e no comportamento
Na cabeça, os pensamentos aceleram e se prendem ao pior cenário: “vou passar mal aqui”, “vou desmaiar”, “estou enlouquecendo”. Fica difícil se concentrar, a irritação aumenta e pode vir choro. No comportamento, surge a vontade urgente de sair do lugar, de ligar para alguém ou de buscar a confirmação de que está tudo bem.
Dor no peito, falta de ar que não melhora, desmaio ou sintomas que você nunca teve antes precisam de avaliação médica, porque também aparecem em problemas do coração, dos pulmões e da tireoide, entre outros. Não tente diferenciar sozinho: na dúvida, procure um pronto-atendimento ou ligue para o SAMU (192).
Crise de ansiedade ou ataque de pânico?
Na prática, os dois se misturam, mas há diferenças úteis para reconhecer o que está acontecendo:
| Aspecto | Crise de ansiedade | Ataque de pânico |
|---|---|---|
| Como começa | Aos poucos, a tensão vai crescendo | De repente, às vezes em plena calma |
| Gatilho | Quase sempre uma preocupação ou situação concreta | Pode não ter gatilho aparente |
| Pico | Menos explosivo, pode durar mais | Chega ao auge em questão de minutos |
| O que mais assusta | A preocupação que não desliga e o corpo em alerta | O medo intenso de morrer, de ter um infarto ou de perder o controle |
Ataques de pânico isolados são comuns e podem acontecer com qualquer pessoa. Quando se repetem e a pessoa passa a viver com medo do próximo, ou a evitar lugares por causa disso, pode se tratar de síndrome do pânico, que tem tratamento próprio: veja a página de hipnoterapia para síndrome do pânico. O Manual MSD explica em detalhes os ataques de pânico e a síndrome do pânico. Só uma avaliação define o que é cada caso.
O que fazer numa crise de ansiedade
Na crise, o objetivo não é fazer a ansiedade sumir na hora, e sim atravessá-la sem alimentar o medo. As medidas abaixo vêm da terapia cognitivo-comportamental (TCC), uma das abordagens mais estudadas no tratamento da ansiedade, e cada uma age num ponto do ciclo:
- Diga a si mesmo o que está acontecendo. Algo como “isto é uma crise de ansiedade; é muito desconfortável, mas vai baixar”. Dar nome à crise tira parte do peso do “e se for algo grave?”, que é o pensamento que mais alimenta os sintomas.
- Alongue a expiração. Puxe o ar pelo nariz contando até quatro e solte devagar, contando até seis ou sete, por alguns minutos. Respirar mais devagar corrige o excesso de gás carbônico eliminado, que causa o formigamento e a tontura, e a expiração longa ajuda o corpo a sair do modo de alerta. Evite puxar o ar fundo e rápido: isso piora a tontura.
- Solte o que está contraído. Repare nos ombros, na mandíbula e nas mãos. Contraia por alguns segundos, depois solte e perceba a diferença. Músculos relaxados mandam ao cérebro o sinal de que não há perigo.
- Dê à mente uma tarefa concreta. Lavar o rosto, arrumar algo na mesa, contar de 100 para trás, de 7 em 7. Com a atenção ocupada por algo simples, sobra menos espaço para o pior cenário.
- Deixe as sensações virem e passarem. Em vez de lutar contra o coração acelerado, observe-o como uma onda que sobe e desce. Brigar com a sensação costuma aumentá-la.
- Corte o que acelera o corpo. Café, energético e cigarro aumentam os sintomas físicos. O álcool alivia na hora, mas costuma piorar a ansiedade nas horas e nos dias seguintes.
O que evitar durante a crise
Algumas reações parecem ajudar, mas mantêm o ciclo: pesquisar os sintomas na internet, medir a pressão várias vezes, pedir que alguém repita que vai ficar tudo bem ou ir embora às pressas de todo lugar em que a crise começa. Elas trazem alívio rápido, mas ensinam ao cérebro que a situação era perigosa, o que facilita a volta da crise. É um dos pontos que a terapia trabalha com mais cuidado.
Se a crise vier na rua ou no trabalho
Afastar-se por alguns minutos para um lugar mais calmo, como o banheiro, uma sala vazia ou um banco, é diferente de ir embora. Se puder, sente-se, aplique a respiração lenta e, quando a crise baixar, volte ao que estava fazendo. Voltar mostra ao cérebro que o lugar não era perigoso. Se estiver dirigindo, pare em local seguro antes de qualquer outra coisa.
Depois que a crise passar
O cansaço e uma certa sensação de ressaca no corpo são normais e passam com descanso. Quando se acalmar, anote em poucas linhas onde você estava, o que fazia, o que pensou logo antes e quanto tempo durou. Feito por algumas semanas, esse registro costuma mostrar padrões que passam despercebidos e é um material valioso se você for procurar tratamento.
Como ajudar alguém numa crise de ansiedade
Se a crise é de outra pessoa, a presença calma conta mais do que as palavras certas:
- Fique por perto, fale pouco e devagar, com frases curtas.
- Evite frases como “calma, não é nada” ou “isso é coisa da sua cabeça”: quem está em crise já está tentando, e ouvir isso costuma aumentar a angústia.
- Pergunte o que ajuda. Se a pessoa tem um medicamento receitado pelo médico para crises, pergunte se ela quer usá-lo.
- Ofereça água e, se ela quiser, respire junto, soltando o ar devagar e em voz alta para que ela acompanhe.
- Não deixe que se forme uma roda de gente em volta e não a obrigue a ficar nem a sair do lugar.
- Se for a primeira crise, ou se houver dor no peito, falta de ar intensa ou desmaio, chame o SAMU (192).
Depois, quando ela estiver bem, vale conversar sobre procurar ajuda, sem pressão.
O que causa crise de ansiedade
Raramente há uma causa só. Na maioria das vezes, a crise é o ponto em que várias coisas se somam:
- Acúmulo: estresse prolongado, sono ruim, excesso de trabalho ou de responsabilidades. A crise pode estourar num momento tranquilo, depois de semanas no limite, e por isso parece “vir do nada”.
- Um gatilho próximo: uma conversa difícil, uma prova, uma notícia, uma cobrança.
- Substâncias: excesso de cafeína, energéticos, alguns medicamentos e a abstinência de álcool ou de outras substâncias.
- Condições médicas: alterações da tireoide, arritmias e outros problemas de saúde podem provocar sintomas parecidos, por isso a avaliação médica vem antes.
- Um transtorno de ansiedade: quando as crises se repetem, podem fazer parte de um quadro como a ansiedade generalizada, a fobia social ou a síndrome do pânico.
No consultório, um padrão que aparece com certa frequência é a crise que começa no caminho para o trabalho ou logo ao chegar ao ambiente. Quando isso se repete, vale olhar não só para a crise, mas para o que acontece naquele lugar e para o que a pessoa antecipa ao ir para lá: muitas vezes, a ansiedade começa antes de sair de casa.
O medo do medo: por que as crises voltam
O que mais faz uma crise virar a próxima não é o gatilho, e sim a forma como a pessoa passa a ler o próprio corpo. Um exemplo comum: alguém sente o coração acelerar num ônibus lotado por causa do calor. Pensa “e se for um infarto?”. O medo libera mais adrenalina, o coração acelera ainda mais, e a suspeita parece confirmada. A crise vem. Dali em diante, a pessoa passa a vigiar o coração, a evitar ônibus cheios e a temer a próxima crise, e essa vigilância deixa o alarme mais sensível.
É esse ciclo, mais do que cada crise isolada, que a psicoterapia ajuda a desmontar.
Quando procurar ajuda
Uma crise isolada, numa fase difícil, nem sempre exige tratamento. Vale procurar ajuda quando:
- as crises se repetem ou estão ficando mais frequentes;
- você passou a evitar lugares, caminhos ou situações por medo de ter outra crise;
- o medo da próxima crise ocupa seus dias;
- a ansiedade atrapalha o sono, o trabalho ou os relacionamentos;
- você recorre ao álcool ou a outras substâncias para conseguir se acalmar.
Se os sintomas físicos forem novos, o primeiro passo é uma avaliação médica. Depois, a psicoterapia trabalha o que dispara as crises e a forma como você reage a elas; quando indicado, o médico pode prescrever medicação.
Na hipnoterapia para ansiedade, uso as ferramentas da TCC com hipnose clínica. A pessoa aprende a perceber a crise no começo, a interpretar de outra forma as sensações do corpo e a voltar, aos poucos, às situações que passou a evitar. A hipnose entra em todo o processo: ajuda a treinar o relaxamento e permite ensaiar essas situações com calma antes de vivê-las. Como é psicoterapia breve, o objetivo e o tempo estimado de tratamento são definidos logo no início. Para entender as chances de melhora, leia também ansiedade tem cura?
Perguntas frequentes sobre crise de ansiedade
Quanto tempo dura uma crise de ansiedade?
Varia de minutos a horas. O pior momento costuma ser curto, mas o mal-estar pode se arrastar quando a pessoa continua alimentando o medo, com pensamentos de perigo ou checando os sintomas o tempo todo. Sintomas que não melhoram pedem avaliação médica.
Crise de ansiedade pode matar?
A crise em si não mata, embora a sensação de que algo grave está acontecendo seja um dos sintomas mais fortes. O risco está em atribuir à ansiedade um problema que é do coração ou do pulmão. Por isso, na primeira crise ou diante de sintomas novos, a avaliação médica vem antes de qualquer conclusão.
Dá para desmaiar numa crise de ansiedade?
É raro. Na crise, a pressão costuma subir, e não cair. A sensação de que vai desmaiar é comum, mas o desmaio de fato quase não acontece. A exceção conhecida são as pessoas com medo de sangue ou de agulha, em que a pressão pode cair. Se você desmaiou, procure avaliação médica.
Respirar num saco de papel ajuda na crise de ansiedade?
Não é recomendado. A técnica pode reduzir o oxigênio e é perigosa se a falta de ar tiver outra causa, como asma ou problema no coração. Respirar devagar, soltando o ar por mais tempo do que leva para puxar, resolve o mesmo problema com segurança.
É normal ter crise de ansiedade à noite?
Acontece. À noite, sem as distrações do dia, as preocupações ganham espaço, e algumas pessoas chegam a acordar já com o coração acelerado. Se isso se repete, vale investigar também causas físicas que atrapalham o sono, como apneia e refluxo, e cuidar da ansiedade que vem do dia.
Dá para ter crise de ansiedade sem motivo?
A crise pode parecer sem motivo, mas costuma ter uma causa que não está à vista, como semanas de estresse acumulado ou de sono ruim. Crises que chegam de repente, sem nenhum gatilho, e atingem o auge em minutos lembram mais um ataque de pânico.
A hipnoterapia pode ajudar quem tem crises de ansiedade?
Pode, principalmente quando as crises se repetem. A hipnose clínica é usada junto com as ferramentas da TCC ao longo de todo o tratamento, para que a pessoa reconheça a crise mais cedo e deixe de evitar o que teme. Mas o resultado pode variar de pessoa para pessoa.


